ARUANE GARZEDIN
ARTISTA VISUAL

HÁ QUANTO TEMPO NÃO OLHO PARA O CÉU?
28 de janeiro a 14 de março de 2026
Centro Cultural Correios Rio de Janeiro, RJ
A exposição individual apresentou cerca de 20 trabalhos, em acrílico sobre tela, além de uma instalação e um trabalho têxtil de grandes dimensões, resultado da pesquisa da artista sobre as relações entre corpo, espaço e tempo no contexto urbano. Com curadoria de Shannon Botelho, a mostra desloca o olhar para o chão da cidade como superfície de inscrição da vida cotidiana, da memória e da experiência sensível.
Há quanto tempo não olho para o céu?
"Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia".
Manoel de Barros
O chão — origem fundamental e mítica de toda sustentação da vida - enquanto base, funciona como lugar de plantio, travessia, fixação e morada. Enquanto símbolo, é território de encontros e perdas, de caminhos e descaminhos, matéria primeira do pó de que viemos e ao qual retornaremos. Esses sentidos constituem o ponto de partida poético da obra de Aruane Garzedin, que encontra no chão um campo fértil de investigação sensível e crítica sobre as cidades.
Na vida contemporânea, especialmente no contexto das metrópoles onde a artista vive e atua, os fluxos urbanos e suas dinâmicas — apagamentos, atravessamentos, construções e demolições — tornam-se ações corriqueiras, muitas vezes naturalizadas e pouco percebidas. Aruane, que é também arquiteta e urbanista, direciona seu olhar para esses espaços em suspensão, lugares que resistem entre passado e futuro, tensionados por um presente em disputa. Nos últimos anos, sua pesquisa se adensa a partir de um viver em trânsito entre a Bahia e o Rio de Janeiro, experiência que integra um método de trabalho baseado em residir temporariamente em diferentes cidades, observando e extraindo delas suas marcas, ritmos e formas de ocupação.
É no piso da urbe — onde os trânsitos e apagamentos se inscrevem de modo concreto e simbólico — que o chão passa a convocar o olhar da artista. Se antes a cidade, em sua totalidade, mobilizava sua atenção, agora o foco se desloca para baixo, para aquilo que permanece à margem do olhar distraído, mimetizando as dinâmicas da vida urbana. Como na canção de Orestes Barbosa e Silvio Caldas, pisa-se nos astros sem perceber que a ventura da vida reside justamente no que as forças da construção civil e do mercado insistem em apagar. O chão emerge, então, como espelho da cidade e do céu, espaço de disputa onde corpos e corporações performam desejos, ideologias e projetos de mundo.
As obras apresentadas nesta exposição dão forma a esse ponto de vista. Por meio de uma estrutura imagética própria, Aruane Garzedin narra o cotidiano urbano tendo o chão como elemento central de reflexão, mas também como campo onde emergem vestígios da presença humana. Cadeiras esquecidas, chinelos abandonados, sombras projetadas por postes e os desenhos que se formam nas calçadas — assim como aqueles que identificam lugares e bairros específicos — inscrevem na pintura sinais de uso, passagem e permanência. A ideia de inacabamento — presente nos buracos, interrupções, recortes e molduras de bueiros — reverbera nas telas, que assumem um caráter fragmentário, como flashes de memória ou miragens do olhar que passa e retém detalhes, texturas e marcas do tempo.
As pedras portuguesas, calçamento emblemático do Rio de Janeiro, estruturam muitas dessas imagens, organizando padrões que atravessam a superfície pictórica e funcionam como marcas de identidade urbana — do calçadão de Copacabana às calçadas da Cinelândia. Seu caráter geométrico não conduz à abstração construtiva, mas amplia a espacialidade da cena, acolhendo objetos ordinários e jogos de sombra que tensionam figura e fundo. Associadas a uma economia cromática rigorosa, essas escolhas resultam em imagens sóbrias e atentas, que recusam a romantização da cidade.
Aqui, o chão é onde a cidade começa — e onde pode, silenciosamente, recomeçar no olhar de cada visitante, convidado a refletir, a partir dessas imagens abertas e incompletas, sobre suas próprias formas de habitar, atravessar e sentir o espaço urbano.
Shannon Botelho
2025














































